segunda-feira, 21 de dezembro de 2009




Desculpa de bêbado é a pinga...
Contra a má sorte

Imaginemos, em toda sua extensão, um país pobre e destinado a assim permanecer. Nós o delinearemos bem pequeno e nele colocaremos uma população pletórica que explode pelas fronteiras. Digamos quatrocentos habitantes por quilômetro quadrado, com um dos crescimentos demográficos mais altos do mundo, da ordem de 3%. Nós o privaremos de qualquer recurso natural: sobretudo, sem petróleo nem minerais! Nós lhe destinaremos uma determinada civilização, uma religião tão conservadora quanto possível, que suscita a passividade. Um pouco de tradição feudal e um sistema de valores fundamentado no desprezo das atividades comerciais agravarão ainda mais o quadro. A população deverá ter 80% de analfabetos e será bom que fale uma língua bizarra, que não se assemelhe a nenhuma outra, para tornar difíceis as comunicações com o mundo exterior. Esse povo não deverá ter nenhuma tradição industrial, deverá ter se dedicado sempre a uma agricultura arcaica e nunca ter recebido minorias estrangeiras economicamente ativas. Perturbaremos a história desse país, causando-lhe os piores danos: exploração por uma brutal colonização estrangeira, uma boa guerra que o cortará em dois e, depois, uma guerra civil para jogar a metade da população contra a outra. Deixaremos no chão dois milhões de mortos, teremos o cuidado de destruir a metade das casas e todas as estradas, pontes ou diques. Não esqueçamos de situar nosso modelo sob um clima muito quente no verão e muito frio no inverno, depois de isolá-lo num ângulo morto do planeta. Para dar-lhe um toque final e cortar-lhe qualquer chance de saída, faremos de nosso povo-protótipo um alvo de dois imperialismos, sob a ameaça militar de um e ocupado e suas bases por outro. Essa tensão obrigará nossa cobaia a investir um terço de suas despesas públicas na defesa. Esperando nada ter esquecido, reunimos assim todas as causas “objetivas” da pobreza.

Acontece, pode-se adivinhar, que esse infeliz país existe realmente e que acabamos de traçar, com a maior fidelidade possível, os contornos da Coréia do Sul. Até 1951, nenhum expert podia, aliás, enganar-se sobre seu destino: trava-se de caso reconhecidamente desesperador. Naquele ano, entre 74 países subdesenvolvidos, de acordo com o critério de renda per capitã, a Coréia foi classificada no 60º lugar. Um quinto da população estava desempregada e o povo só conseguia sobreviver com a ajuda alimentar dos Estados Unidos. 25 anos mais tarde, a Coréia subiu para o nono lugar, sua taxa de crescimento anual continua superior a 7%. Qual é, portanto a poção mágica dos Coreanos?


Guy Sorman – A Nova Riqueza das Nações

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