quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Reserva de Mercado nas Profissões.( Uma visão Econômica)






Em Economia, especificamente, ao estudarmos as estruturas de mercados, temos a oportunidade de conhecer e correlacionar essas estruturas com o mundo real. Vou ser menos técnico, para que fique mais didático esse texto.

A estrutura de mercado chamada Concorrência Perfeita, tem algumas premissas básicas, dentre elas, destaco algumas para entendermos e relacionar com o objetivo desse artigo: é um tipo ou estrutura de mercado onde existe um grande número de produtores e consumidores. Numa situação de concorrência perfeita nenhuma empresa pode, por si só, influenciar o mercado. O conjunto das empresas é quem determina a oferta de mercado, a qual interagindo com a demanda, determina o preço de equilíbrio. Independentemente da quantidade que uma empresa produz, essa empresa terá obrigatoriamente que vender a sua produção ao preço determinado pelo mercado.

Entendendo essa estrutura de mercado, agora poderemos confrontar com o objetivo do artigo. A reserva de mercado na economia,para ser objetivo tem um objetivo único: proteger determinado segmento de mercado da concorrência. Qualquer segmento que detem reserva de mercado, perde a caracteristica de um mercado concorrencial, e ganha carater monopolístico.

Então qual a relação entre Reserva de Mercado das Profissões e Estrutura de Mercado, perguntaria um leitor atento, veremos. A prática de criar associações para controlar a oferta de uma profissão e assim controlar os ganhos, remonta a idade média com as corporações de ofício. Essas práticas mantinham os preços altos porém estrangulavam a inovação do mercado e mantinham todos em uma situação mais pobre. Note atento leitor, que isso continua acontecendo nos dias atuais. Como em qualquer mercado, uma concorrência menor faz com que a qualidade do produto caia e seus preços subam.

Como já foi dito acima, diminuir a competitividade de um mercado raramente se reflete em aumento de qualidade. Com a obrigatoriedade do diploma, faculdades podem passar a valorizar mais o canudo do que passar conhecimentos que de fato tornarão o estudante um profissional melhor. Isso também estimula o já inchado mercado de cursos de qualidade duvidosa a despejará profissionais menos qualificados todo ano. Prova disso, é a última prova da OAB( Ordem dos Advogados do Brasil), apenas 4% dos inscritos foram aprovados, e a grande maioria os 96%, não estudaram nada durante os cinco anos de graduação, ou, essa prova ou regulação de mercado é apenas um meio de monopolizar a oferta e assim manter uma situação monopolistica de mercado.

Se temos faculdades incapazes de produzir um número razoável de bacharéis aptos ao exercício da profissão, eis que 96% por cento dos seus egressos são considerados ineptos, então temos diante de nós um escândalo colossal, da magnitude de bilhões de reais, dignas de provocar o impeachment da presidente e do seu ministro da educação.

Imaginem se essa cartelização adentre outras profissões, como um músico por exemplo: um sujeito que tem múltiplos talentos e o "dom" da voz, dos instrumentos, fique sem exercer sua profissão, por não possuir um simples diploma de música, ou, uma carteira que nada atesta sobre sua qualidade. Teríamos que ouvir, sujeitos péssimos, e sem qualidade, pelo simples fato de possuir uma carteira profissional.

Há conselhos que cobram R$ 400,00 por ano de uma categoria que possui 500 mil profissionais! Convenhamos, R$ 2 bilhões anuais, "tax free", é uma receita razoável...

O que existem, sim, são os monopolios de direito, que por isto mesmo, de fato se tornam. Em outras palavras, o monopólio tem como se sustentar quando funciona sob a proteção do estado, como por exemplo, são os próprios atuais advogados aqueles que decidem quantos e quais serão os novos concorrentes, sem que a população tenha como interferir de alguma maneira.

Outro exemplo prático, um operador de bolsa de valores, a grande maioria não são Economistas, e certamente, a maioria entende mais de mercado de ações e futuros, do que muitos Economistas.Se houvesse, reserva de mercado nesse segmento, péssimos operadores de bolsa de valores, mas protegidos por carteiras profissionais, iriam colocar no mercado profissionais medíocres e despejar ao desemprego exímios profissionais.

Enfim, vamos deixar o mercado julgar as nossas competências técnicas. Perder o medo da concorrência e acabar com o protecionismo exagerado. Como acontece na música, nos serviços de eletrônica, nos medicamentos, entre outros.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Reflexões oportunas...

"Deve o cidadão, ainda que por um instante, ou no menor grau que seja, entregar sua consciência ao legislador? Então por que todo homem tem uma consciência? Penso que devemos ser, antes, homens, e só depois súditos. Não é desejável cultivar o respeito pela lei, e sim pelo que é certo. A única obrigação correta de se assumir é a de fazer a todo o momento aquilo que se considere correto." ( Henry David Thoreau (1817-18620 )

Resistir à lei não é afirmar a inexistência de leis, e sim a existência de uma lei superior à do estado, que, como qualquer autoridade, pode usar o poder de forma injusta ou incompetente. É direito, ou até dever, de todo indivíduo, combater o mal, ainda que legalmente instituído. Há um princípio do direito natural que nunca será apagado do coração dos homens: "a lei injusta não é lei". Vivemos num país de leis injustas. Leis que impedem um homem de trabalhar, de abrir seu negócio, de consumir aquilo que precisa para viver, de possuir o fruto do próprio trabalho; todas elas prejudicam, e muito, a sociedade como um todo, beneficiando apenas grupos de interesse que não precisam de, e nem merecem, benefício algum. Imaginem se fôssemos seguir à risca nossas leis trabalhistas; dá para imaginar o tamanho do desemprego? Podemos responder ao crescimento sem precedentes das leis injustas pelos caminhos previstos na lei; mas lembremos de Thoreau: "Quanto aos meios que o estado oferece para remediar os males, não quero saber. Tomam muito tempo, e a vida de um homem terá acabado. Tenho mais o que fazer. Vim para este mundo não para torná-lo um bom lugar de se viver, e sim para viver nele."

Em tempo que os julgamentos tomaram conta do mundo, sempre é bom recorrermos a nossa consciência, validando internamente o que é correto ou não.

Robson Miranda.

Tenho saudade de mim ( Maravilhoso Texto)




Arnaldo Jabor - O Estado de S.Paulo


Estava a ler o texto de Adauto Novaes (nosso filósofo sem torre de marfim) sobre a preguiça - tema de seu seminário/livro atual. Na realidade, são estudos sobre a lentidão, neste mundo cada vez mais veloz. E, aí, tive saudades da calma, do princípio, meio e fim, tive saudade das "geladeiras brancas e dos telefones pretos", das manhãs, tardes e noites, separadas pela luz que se coloria do rosa ao negro e se apagava aos poucos, tive saudade das mortiças casas de família, até da infelicidade de antigamente - de novela de rádio -, de lágrimas furtivas, dos casais com olhos sem luz, depois de casamentos esperançosos com buquês arrojados para um futuro que ia morrendo aos poucos.

Estou com saudades de tudo. De mim, inclusive. "Saudades" ou "saudade"? Tenho saudade (s) de meu velho professor de português, magrinho, irritadiço e doce, Luis Vianna Filho, que me bradava: "O senhor não tem acento circunflexo!", apontando meu nome que meu avô árabe registrara "Jabôr". E continuava: "Jabor é o certo. A única palavra dissílaba da língua terminada em "or" que tem circunflexo é "redôr", para diferenciar de "redor, em volta de", pois redôr é o pobre-diabo que fica puxando o sal nas salinas, com um rodo".

Lembrei-me dos miseráveis "redôres" de Cabo Frio, lembrei de minha juventude quando achei, por acaso, uma velha fotografia de jornal, em preto e branco, da passeata dos Cem Mil em 1968 na Cinelândia. No meio da multidão da foto, vi emocionado um pequeno rosto granulado - eu mesmo, ali, sentado no chão, ouvindo os discursos de Vladimir Palmeira e (talvez) de Dirceu -, bonito, cabelo longo, hippie guerreiro.

Tive uma nostalgia do passado até com a recente "reprise" de José Dirceu na mídia como poderoso chefão dos soviéticos que, aliás, aproveitaram os últimos escândalos para reciclar o lixo bolchevista de "controlar a Imprensa". (Eles não desistem). Fiquei nostálgico porque Dirceu era também uma sobrevivência do passado em minha vida. E tive uma bruta saudade da utopia. Sempre critiquei o Dirceu porque ele, do passado em preto e branco, tinha querido invadir o presente com uma subversão regressista, que poderia nos jogar de volta a um tempo morto. Muito mais do que os milhões desviados do "mensalão", critiquei-o ideologicamente, porque ele liderava uma tendência, viva ainda hoje, de se "tomar o Estado", "desapropriando" o dinheiro público pelo "bem do povo". Dirceu caiu por uma tentativa que mais uma vez falhou, em nossa esquerda de trapalhões, como foi em 63 ou em 68, no Congresso de Ibiúna.

Mas, mesmo assim, fiquei com saudade de mim mesmo. Tenho saudade de mim ali, com o rosto cheio de esperança na passeata, achando que mudava a história e que o mundo era fácil de mexer.

Como eu gostaria de explicar aos jovens de hoje o que era a infalível "certeza" daquela época remota, o que era a delícia de viver sentindo-se no "bom caminho", na "linha justa", salvando o futuro. Hoje, ninguém sabe o que era o sentimento de harmonia, de totalidade, em um mundo fragmentado e frio. Hoje, os meninos vivem em galáxias de informações, quando não há mais lugar para "A Verdade". Os jovens que nascem no grande deserto virtual não sabem que vivíamos num rio que corria para o futuro, em direção a uma felicidade completa, com lógica, com Sentido. Tenho saudade do futuro que hoje se espraia como uma grande enchente suja, sem foz, um deserto sem ponto final. Hoje sabemos que não há mais futuro nem chegada - só caminho.

Tenho saudade do amor da juventude, da minha namorada comunista - nós dois no sofá-cama do "aparelho" clandestino do PCB em Copacabana, o sofá-cama rasgado, com a mola aparecendo, onde nos amávamos antes da reunião da "base" com medo que chegasse o supervisor, um "camarada" com um doce nariz de couve-flor rosado e tristes sapatos pretos com meias brancas, que nos falava, melancólico, do imperialismo norte-americano. Tenho saudades dela, linda, corajosa, no apartamentinho com o cartaz dos girassóis do Van Gogh e uns livros da Academia Soviética, numa prateleira sobre dois tijolos.

Para nós, comunas, até a morte era pequena, como nos ensinava o camarada de nariz rosado: "O marxismo supera a morte, pois uma vez dissolvido no social, o indivíduo perde a ilusão de existir como pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre!" E eu, marxista feliz, sonhava com a vida eterna...

Tenho saudade das madrugadas cheias de esperança, as madrugadas políticas, a boemia de esquerda, soldados de uma guerra imaginária. Meu Deus, como eu era importante, como me senti útil quando ajudei um pouco a luta armada, quando levei no meu fusca um casal de feridos sangrando no banco de trás, até um "aparelho", quando o líder da célula pegou o volante e eu fui ao lado, de olhos fechados para não saber onde estávamos - se bem que espreitei pela fresta das pálpebras e vi o casal mancando em direção a um prédio. Tenho saudades dessa trágica solidariedade, mas tremi nesse dia, pois comecei a entender que não havia apenas um deserto à nossa frente, mas uma avalanche de obstáculos imensos e que íamos acordar de um sonho para um pesadelo. Entendi que éramos fracos demais para moldar a realidade e que a vontade não bastava, pois as coisas comandavam os homens e a vida tem um curso próprio e misterioso. Entendi que ser político e lutar pelo futuro exige vagar e respeito pela insânia do mundo e que a tragédia é parte essencial da vida e que tentar saneá-la pode levar-nos a massacres piores. Entendi que luta política se faz com humildade e que só a democracia é revolucionária no Brasil. Fora isso, é o desastre. Mas, tenho saudade da mistura de poesia com revolução que era nossa vida, tenho saudade desse narcisismo onipotente e inocente, tenho saudade da esperança e da ilusão.