sábado, 11 de dezembro de 2010

A sabedoria de Mário Ferreira Santos.





Esse país é muito engraçado um verdadeiro circo que no picadeiro se encontram vários palhaços, e na platéia milhões de bajuladores que aplaudem tudo que os palhaços fazem.

O mais espantoso é que esses "cavalos marinhos" conseguem destruir e relegar ao ostracismo, aqueles grandes formadores de opiniões, homens que conseguem ser acima de seu tempo. Homens estes, que dizem a verdade antes do tempo.

Talvez esse seja o grande medo dos "patetas", o medo da informação, da educação esmerada, do conhecimento, do discernimento, talvez com esses atributos certamente o picaderio estaria cheio, mas a platéia estaria também cheia de gente que vaiariam com muita veemencia, e como todos sabem: Sem público não há espetáculo.

Peço a licença de publicar nesse humilde espaço um trecho da obra de Mário Ferreira Santos, tenho certeza que muitos dos que lerão essa publicação, nunca ouviram falar desse "monstro" nacional, um homem que viveu para devolver ao país a inteligência sufocada, viveu para ratificar a verdadeira essência do homem na Terra, apreciar as obras de Mário Ferreira Santos é inebriante, esclarecedor, uma luz nesta treva ignara que o país vive.

Segue um pequeno trecho de uma palestra de Mário Ferreira no Instituto Teológico Salesiano - São Paulo realizada (07/03/1967).


Certa ocasião eu passei por uma experiência muito séria, eu tenho me dedicado mais a dar aulas para grupos isolados, nunca me preocupei em ser professor de escola alguma, aliás faço isso deliberadamente porque tenho um modo de ver, de sentir e de pensar muito pessoais e não gosto de entrar em choques com os outros, gosto de respeitar a idéia alheia e naturalmente isto dentro de uma universidade é difícil, porque tem o seu programa, a sua orientação e eu não concordo, por exemplo, eu não dou aulas de filosofia de menos de três horas, o aluno que não pode suportar três horas não deve estudar filosofia, é o meu modo de sentir, de pensar e de ver.

De maneira que eu tenho uma vida isolada, dedicada apenas ao ensino particular, mas faço a minha ação pastoral, faço a minha catequese, porque no meu curso aparecem homens de todas as tendências, vindos de todos os setores, materialistas, ateus, e eu procuro dar-lhes uma fé, uma visão mais profunda. Eu passei por uma experiência que foi uma grande para mim e que talvez os senhores, dela possam aproveitar muito para a sua vida futura, quando se dedicarem a vida apostolar. Eu tinha um aluno, que era um dos meus melhores alunos, dos mais inteligentes, que havia revelado o maior talento para a filosofia, e me parecia que ele aceitava plenamente tudo o que eu propunha e dava em aula. Um dia ele pediu um encontro particular, veio a minha casa e me disse: “professor, eu quero avisar-lhe que vou deixar de freqüentar as suas aulas”, “pois não, qual é o motivo?” perguntei, ele respondeu: “eu quero ser-lhe franco, eu perdi a fé, eu não creio mais, não posso admitir nenhum fundamento na religião, no cristianismo, primeiro porque Cristo para mim não tem nenhum sentido histórico, Cristo não existiu, Cristo é uma invenção”.

Prosseguiu dizendo que tinha perdido completamente a fé em Cristo, que Cristo não tinha mais nenhum sentido para ele e que nesta vida devia se procurar os frutos que ela pode dar porque só aqui é que vamos colhê-los, porque a outra não existia. Ele estava completamente descrente. “Bem, - eu disse para o jovem – fico muito satisfeito por um lado e triste por outro. Triste por saber que você chegou a este ponto, mas satisfeito pela sua atitude honesta de vir comunicar-me esta sua posição atual, mas me permita que fale um pouco, que lhe diga alguma coisa”. Ele disse: “professor não adianta, se o senhor vai querer pregar alguma coisa para mim não adianta mais, porque eu estou decidido, já escolhi”. Eu disse-lhe: “não tem importância, mas me deixa falar”.

Disse: “então vamos examinar Cristo por um ângulo fora da religião, vamos examinar Cristo pelo ângulo puramente estético”. Olhamos assim os personagens criados pela literatura através dos tempos e veremos que nenhum desses personagens, você pode escolher qualquer um, o que quiser, Lohengrin. Don Quixote, etc., nenhuma desses personagens apresenta a grandeza da vida de Cristo. Naturalmente não vou relatar os detalhes da conversa, não há necessidade. Falei sobre a vida de Cristo, a grandeza de Cristo, a sua primeira manifestação nas bodas de Caná, Cristo ante a adúltera, Cristo nas suas pregações, Cristo através de todo tempo, etc. Mostrei para ele, por exemplo, que Don Quixote adequava-se a uma determina época, mas não teria sentido, por exemplo, dentro da sociedade atual. Mas que observasse que também por exemplo, a “Crítica da razão pura” de Kant estaria adequada a época em que foi feita, imagine ela feita na época das Cruzadas, não teria nenhum sentido, nenhuma adequação com a época. Prossegui: “podemos citar vários exemplos dessa espécie, que é um aspecto histórico, mas você observa que Cristo não tem essa historicidade, que Cristo vence a história, que Cristo podia vir hoje, que Cristo podia ainda hoje estar pregando, que Cristo podia estar seguindo pelos caminhos do mundo a pregar para as multidões, a apurá-las a fazer o bem, Cristo é eternamente atual, tem uma atualidade que ultrapassa ao tempo. Além de que você não pode negar que Cristo corresponde perfeitamente ao arquétipo que você tem, que você deve ter, que é humano, o arquétipo do grande santo, o arquetipo do grande herói, o arquetipo do grande sábio. Nós vemos Cristo representar este arquetipo em todos os aspectos, você não pode me negar a verdade arquetípica de Cristo. Ele corresponde a estes arquetipos, você não pode ofender Cristo, você não pode chegar a negar o valor deste homem, você teria que reconhecer que esta personagem se tivesse existido você lhe prestaria homenagem.”


Ele foi concordando, não podia deixar de concordar, então eu fui prosseguindo e disse: “vamos aceitar, vamos partir, meu amigo, da verdade arquetípica de Cristo, como o maior exemplo do sábio, do santo e do herói. Basta-me isto para que possamos daí levar avante e recuperar o que você perdeu.” “Eu aceito tudo isso, mas a historicidade dele, não.” “Mas não preciso da historicidade dele, Cristo é uma verdade humana dentro de todos nós, todos nós o desejamos, todos nós o queremos, todos nós queremos este sábio, este santo, este herói, todos nós marchamos para ele. Você pode negar a historicidade como quiser, mas você não pode negar a si mesmo, não pode negar a sua própria realidade, é o seu coração que pede, é todo o seu ser que clama por isso, você gostaria que fosse assim, você queria um mundo cristão, você queria um mundo em que os homens se amassem uns aos outros, você queria um mundo em que todos se compreendessem, um mundo de reconciliações, um mundo em que os homens se reconciliassem com a vida e uns com os outros, você não pode negar que tem que sentir este desejo, isto também é uma arquetipo dentro de você, é uma arquetipo social que você tem”.



Ele não pode negar, não podia negar porque era honesto, já o fora na atitude que havia tomado para comigo e assim tinha que prosseguir. Este homem foi recuperado, voltou-lhe a fé, ele reencontrou a fé através dos arquetipos. Hoje esse aluno está cursando um Seminário.

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