segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Da Amizade, livro de Marco Túlio de Cícero!









Da amizade é um diálogo composto por Cícero em 44. O autor coloca em cena três interlocutores: Lélio, Fânio e Cévola. O diálogo acontece tem como principal causa a morte de Cipião Emiliano, amigo inesquecível de Lélio, que enfatiza em seu discurso a importância da amizade na vida das pessoas, as formas pelas quais ela se manifesta e suas peculiaridades.

A amizade entre as pessoas é extraordinária. “Que haverá de mais doce que poder falar a alguém com falarias a ti mesmo”? “De que nos valeria a felicidade se não tivéssemos quem com ela se alegrasse tanto quanto nós próprios?” (p. 31). É impossível viver bem sem amigos, pois assim como todos os bens apresentam uma vantagem, amizade envolve em si inúmeras utilidades. Pode-se dizer que a amizade é onipresente; esta estabelece uma comunicação contínua, mesmo se um estiver distante do outro. Vale lembrar que estas qualidades são inerentes a uma amizade verdadeira e perfeita, e nem todas as relações a possuem. Defender a amizade, então, é objetivo primordial daquele que a conquista com fidelidade, constância e justiça.

Manter a amizade com uma pessoa nem sempre significa que essa pessoa relaciona-se reciprocamente com aquele que o tem como amigo, e às vezes, nem o conhece. Podemos considerar amigo aquele que nos conquista pela sua relação respeitável na vida pública e privada, próximos ou semelhantes ao ideal de vida que visamos alcançar. Da mesma forma, uma pessoa pode tornar-se objeto de ódio e desprezo pela sua índole, crueldade e ação contrária ao que julgamos ser merecedora de nossa confiança e consideração.

A existência da amizade não se mede e nem se avalia pela necessidade que se tem em possuí-la. A pessoa que conquista e conserva amigos não é aquela de poucas condições, inseguro de si mesmo. Os que procuram conquistar e conservar amigos são justamente aqueles que têm autoconfiança, é ciente do seu valor e capacidade de discernimento. A amizade nasce através das virtudes e não pela necessidade. Os benefícios que se alcançam através dela não devem ser considerados como o principal motivo para a sua existência, tendo em vista que o maior prêmio é o próprio amor que ela desperta.

Se a amizade é um tesouro de valor inestimável, imagine então o quão difícil é conservá-la até o último dia da vida, pois até nas relações os comportamentos modificam-se, haja vista que cada um tem as suas especificidades, e nem sempre compartilha da mesma visão ou interesses. Lélio considera como o pior flagelo da amizade o apego ao dinheiro ou a disputa de cargos e glórias, típicos de sua época. As desavenças podem ser remediáveis ou desastrosas e podem originar de diversas causas. As queixas não somente sucumbem os melhores relacionamentos, como também gera ressentimentos intermináveis. Segundo Lélio, para escapar dessas fatalidades, não é necessário somente a sabedoria, é preciso sorte.

“Eis, pois, a lei da amizade que se deve estabelecer: nada pedir de vergonhoso, nada de vergonhoso conceder” (p. 53). É uma observação honrosa, que suprime qualquer referência a amizade verdadeira medida por tais comportamentos, em que se espera justificar um ato vergonhoso em nome da dedicação ao outro. Não obstante, é um julgamento oportuno para os dias de hoje, pois em nome da amizade cometem ações infames e inadmissíveis ao real sentido que expressa a amizade. “Assim, maus cidadãos não se deve proteger com a escusa da amizade, mas antes deve ser punido com todos os suplícios...” (p. 58).

Quanto à crítica da tese utilitarista da origem da amizade, uns observam que se deve evitar relações numerosas, para que há haja preocupação expressiva. Se o importante para uma vida bem-sucedida é ter tranqüilidade, então não é sábio aquele que se extenua por muitos. Outros afirmam que ao fazer amigos, devemos buscar apoio e proteção, não benevolência e afeição, pois isso é para fracos e inseguros.

Os males que circuncidam sobre essa relação tão forte e ao mesmo tempo tão delicada são muitos. A riqueza de muitos poderosos afasta os amigos fiéis. O homem é naturalmente competitivo. Alguns reagem a essa individualidade judiciosamente e, às vezes, não chega a comprometer suas relações sociais. Outros deixam arrebatar-se pelo desdém e arrogância. Por isso, vemos pessoas que ao ter uma ascensão, desprezam os amigos antigos e procuram novos. Isso nada mais é que a sólida insensatez, que na abundância de recursos, meios e influências, enche de coisas materiais e não conserva os amigos, que na verdade são os verdadeiros ornamentos da vida.

A escolha dos amigos não é tão simples, haja vista que devemos escolher aqueles que são firmes, estáveis e constantes. E só é possível julgá-los antes de pô-los à prova, que só pode ser feita mediante a relação de amizade. Então, a amizade se antecipa ao julgamento e suprime a possibilidade da experiência prévia. Lélio também faz referência a volubilidade que há por parte daqueles que traem a amizade pelo dinheiro ou cargos que denotam poder. Por isso, as verdadeiras amizades são raras entre aqueles que se consagram às disputas de cargos públicos.

Da amizade deixa-nos um grande ensinamento, que é o cuidado que devemos ter com os bajuladores, que sempre procurar agradar e nunca dizem a verdade, se esta for uma reflexão. Na amizade nada é pior que a adulação, a lisonja, a bajulação. Os inimigos nos prestam um melhor serviço que os amigos que se mostram cheios de doçura: estes nunca falam a verdade, aqueles não medem esforços em publicá-las. O melhor é condenar o vício dos bajuladores, que sempre falam para agradar. No entanto, há quem goste da bajulação. Por isso, não há homem que dê mais ouvidos aos aduladores do que aquele que a si próprio se vangloria com a máxima complacência. Isso não passa de uma virtude imaginária. “Estes se deleitam com a lisonja e, para concordar com suas vontades, pensam que essa vã tagalerice testemunha seu mérito” (p.110). De fato, não há amizade quando um se recusa a escutar a verdade e o outro está disposto a mentir.

É necessário procurar à nossa volta alguém digno de ser amado e capaz de amar, pois as coisas deste mundo são frágeis e passageiras. Por isso, Lélio diz que seu amigo Cipião nunca deixará de viver, pois o amor entre os dois nasceu pela virtude, e esta não morre jamais. Lélio finaliza o assunto ressaltando que só é possível adquirir amigos verdadeiros tendo a virtude como o seu principal atributo, que a sua exceção, nada é superior à amizade.

Cícero (Marcus Tulius Cícero) nasceu em 3 de janeiro de 106 a. C. em Arpino, no Lácio. Sua família pertencia à alta burguesia municipal e fazia parte da ordem equestre, a segunda depois da ordem senatorial. Seu pai mantinha relações em Roma com grandes personagens do Estado, mas não nutria nenhuma ambição romana e se manteve à margem da vida política. Cícero faleceu em 43 a. C.



BIBLIOGRAFIA:
Cícero, Marco Túlio, Da Amizade. – São Paulo: Martins Fontes, 2001.

2 comentários:

  1. É. Tempo livre não significa tempo perdido. rs

    Gostei dos textos que você posta. Muito.
    Bem se vê que é uma pessoa de ideais e valores bem definidos. Enfim, parabéns.

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  2. Obrigado querida, fico feliz e agradecido pelo tempo que dedicastes nesse humilde espaço.

    Se tiveres também algum meio de comunicação, me passa.

    Beijos no coração, Izah!!

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