
O termo inglês gentleman não possui equivalente exato em outra língua.
Provavelmente porque se trata de uma instituição essencialmente britânica. O português
gentilhomem carrega o significado de fidalgo, nobre, bem-nascido, bem-educado,
"donairoso e elegante". Também o de ocioso, bem vestido, algo de grã-fino. Não é, porém,
um termo geralmente usado. Em francês, gentilhomme ainda sugere, claramente, o
aristocrata que pertence a uma determinada classe social hereditária. "Cavaleiro" era quem
antigamente podia andar a cavalo e hoje é o "homem de sentimentos e ações nobres,
homem de boa sociedade e de educação esmerada" — o que muito mais se aproxima do
significado de gentleman. Mas a prova que o conceito é de origem indiscutivelmente
britânica está em que, até hoje, se prefere a própria palavra inglesa para sugerir a ideia de
uma personalidade de elite na moral, no caráter, na educação, no comportamento; de um
homem veraz, reto, honesto, em que se pode depositar inteira confiança. Uma das melhores
definições do que seja um gentleman me foi oferecida por um amigo, diplomata inglês, ao
acentuar que é aquela pessoa que revela consideração pelas conveniências do próximo. Um
gentleman é sempre um gentleman, dizia Dickens. Selfless and stainless ("sem egoísmo e
sem mancha"), acrescentaria Tennyson. Seria o homem que, como assinalava Chesterton,
possui o "sentido da reciprocidade", reciprocidade para com o outro...
Alguém sugeriu, alhures, que a cultura inglesa se resumiu no esforço de criação da
figura do gentleman. Foi essa a verdadeira Paideia de Eton, de Oxford e de Cambridge: a
formação do homem perfeito no caráter, e não apenas do homem instruído. Do mesmo
modo como na Grécia antiga se objetivava formar o polites e, em Roma, o cidadão (cives)
— dedicado ao serviço de sua cidade, ao trato com seus concidadãos e ao enfrentamento
estoico das rudezas da existência — a sociedade inglesa, na época do apogeu do British raj,
criou esse modelo exemplar e singular que muitas outras nações pretenderam imitar nas
suas elites. O gentleman era o centro em torno do qual girava a sociedade. Ele usufruía dos
serviços de um mordomo, o gentleman's gentleman. Era sempre acompanhado por seu
melhor amigo, o cão. Gozava do convívio de seus semelhantes nessa instituição peculiar
que é o clube, fechado estritamente à entrada de estranhos. Mais para baixo na hierarquia social, surgia a mulher do gentleman, a lady, cuja função precípua era gerar outros
gentlemen. As crianças não deviam ser vistas — porque ainda selvagens — e muito cedo
desapareciam nos internatos, depois de haverem adquirido os preceitos rudimentares da boa
educação por parte de suas nannies, suas amas.
O Partido Conservador inglês sempre postulou dever o país e o mundo serem
governados por gentlemen. Mais tarde, prosperou o Partido Trabalhista, consagrado ao
projeto absurdo de transformar toda a população, composta de common men, de gente
comum, hoi polloi, em gentlemen responsáveis pela política do país. A decadência inglesa
data dessa época... Mas o mundo superior do gentleman foi abalado de outros modos. A
começar por essa curiosa raça de americanos que, tendo originariamente gozado do
privilégio singular de serem gentlemen, preferiram fazer uma guerra de independência para
concretizar a proposta ridícula de que todos os homens nascem iguais e são susceptíveis de
alcançar a mesma meta de liberdade, responsabilidade e bem-estar.
O pensador inglês Michael Oakshott, que é velho e venerável representante (tem
80 anos!) do novo movimento liberal-conservador e uma espécie de gurú de Mrs. Tatcher,
afirma que o código essencial de moralidade britânica é a expressão: Don't be rude!, "não
seja grosseiro!", imperativo que melhor poderia ser traduzido como "não seja malcriado,
não seja cafajeste!". Oakshott gosta de contar a estória dos marinheiros do capitão Cook.
Ao desembarcarem numa das ilhas da Polinésia, o grande navegador e descobridor preveniu
a equipagem: "Lembrem-se de que os senhores são britânicos!"... Era um aviso e um
conselho moral. Tinha razão: alguns anos depois, os marinheiros do "Bounty"
desembarcaram e se deixaram seduzir pela beleza da natureza ambiente, pela amenidade do
clima edênico e pelo apelo da carne das gatinhas locais. O resultado foi o famoso motim
que acabou tragicamente...
Notai a extensão e as configurações particulares do termo, em seus refinadíssimos
pormenores e em sua acepção vulgar. Todo varão pode, em teoria, se tranformar num
gentleman. Como assinalava Burke, pode um rei criar um nobre, mas não pode fazer um
gentleman. Na porta de um W.C. público pode figurar a menção gentlemen. Mas em nosso
país basta entrar numa dessas vespasianas (como aliás em qualquer local coletivo, ônibus,
cinema, orelhão, vestíbulo de repartição ou mesmo avião de ponte-aérea), para se constatar
a raridade do fenômeno. A imundície lá impera, o barulho cafajeste, o mau cheiro — para
denunciar sua ausência. Pouco gente tomou chá em criança...
Na etimologia do termo podemos sempre lembrar as suas origens medievais. Se é
verdade que o sentido é elitista, acentuemos que o ideal do verdadeiro cavaleiro cristão —
originariamente um membro de uma Ordem de Cavalaria — era defender o fraco; proteger
a mulher; socorrer o ferido, a criança, a viúva, o inválido; fazer respeitar a justiça; perseguir
o bruto e o pérfido; matar o criminoso assaltante. O oposto do gentleman era o homem
literalmente ignóbil — aquele que não tem nobreza, que é vil, cruel e desprezível. O cardeal
Newman assinalava, no século passado, que "é quase uma definição do gentleman dizer que
é aquele que jamais faz alguém sofrer" (never inflicts pain). Acrescente-se como é
inseparável da ideia de serviço ao próximo que acompanha, como obrigação de status
social, a concepção de noblesse oblige. Essa é a verdadeira honra da nobreza consciente, o
que na verdade não contradiz, mas confirma, a ética do Super-homem proposta por
Nietzsche. Toda a história do conceito de gentleman demonstra sua evolução a partir de um
conteúdo puramente formal e exterior de classe hereditária privilegiada, orgulhosa de sua
condição, para uma apreciação mais subjetiva e espiritual em que o homem deve demostrar
seu gabarito moral pelas reações aos conflitos da vida e aos percalços da concorrência em
sociedade. Como acentuava Richard Steele em 1714, "a apelação de gentleman deve ser
afixada não às circunstâncias de um homem, mas a seu comportamento em tais
circunstâncias"...
Contrariamente à noção de honra e pundonor, entre os latinos e meridionais, que é mais afetiva e em certo sentido egoísta, narcisista, machista e implica o sentimento
tradicional de que o cavalheiro não pode sujar as mãos no trabalho manual, mas apenas usálas
para as armas, o ideal do gentleman sugere uma ética ou uma política de consideração
para com o outro. É nesse sentido que reflete em termos modernos, seculares, um
humanismo que é estoico e profundamente cristão. Como modelo da educação do perfeito
cavalheiro, numa paideia aristocrática cuja origem se poderia talvez encontrar em Platão, o
paradigma do gentleman é tal que tem aplicação universal quando por toda parte, na
política, na economia, na cultura, nos sentimos cercados de rinocerontes...
O produto dessa Paideia é o verdadeiro gentleman, impregnado de religiosidade — de uma religiosidade que não seja
ritualista, sacramentalista e supersticiosa, mas fundamentada nos imperativos racionais da ética.

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