quarta-feira, 7 de abril de 2010

Homenagem a um Grande Mestre!




Alguns acreditam que a idade é quesito de mensuração entre o que é válido, e o que não é, eu não acredito nessa teoria, prova disso é que as melhores mentes e homens mais lúcidos que conheço, são os de idade, que por sinal, orgulho-me muito em ter grandes amigos de mais idade, só assim consigo antecipar algumas coisas, e viver como vendo uma laterna na Popa. Observa-se contudo, no caso do Vinho, quanto mais velho, mais saboroso e mais valorizado é esse produto, acontece mesmo com o isque,não sei o motivo que leva a nossa sociedade a desrespeitar os mais experientes e joga-los no ostracismo da vida. Como forma de homenagem, a um dos grandes mestres que sigo na Academia, é o José Osvaldo de Meira Penna, um dos homens mais lúcidos e inteligentes que esse país conheceu. Essa é apenas uma humilde homenagem, a esse grande homem, que ainda está vivo e quase ninguém ouve falar dele. Aos 93 anos tão lépidos, que nem os brotos academicos que vivem arrotando superioridade, conseguem incomoda-lo, hoje o ``velho`` mestre, encontro-se em Brasília, o mesmo é Diplomata, Escritor Refinadissimo,Jornalista e pensador, e apesar desse leque de qualidades, que ousa visita-lo, sempre é recebido com cortesia, respeito e dignidade. Simples homenagem, a um grande homem.
Eis um artigo escrito pelo Meira Penna, em 1999, sobre nosso país, observe tamanha lucidez e contemporanedade nas suas palavras.

Desfrutem!



Jornal da Tarde, 15 denovembro de 1999
Sete sinais de sub-desenvolvimento




Há alguns anos escrevi um artigo, sob este mesmo tema, sugerindo uma maneira de se empreender um tratamento sintomático do sub-desenvolvimento. Há certos traços universais de comportamento popular corriqueiro que nos permitem aquilatar imediatamente se qualquer cidade ou país é do Primeiro ou do Terceiro Mundo. Vejam sete exemplos:

1) Falta de respeito pelas passagens de pedestres (zebras) nas ruas de grande movimento. Nos países do 3º Mundo o automóvel é ainda um sinal de status, como o cavalo da antiga nobreza. Na hierarquia do subdesenvolvimento, o pedestre é um ser desprezível que pode, impunemente, ser atropelado quando atravessa a rua. 2) Correlato desse comportamento, surge o alto índice de acidentes de tráfego. Temos a triste honra de registrarmos um record mundial nesse particular, não obstante o recente Código de Trânsito. 3) Vandalismo nos bens públicos, "orelhões", bancos de jardim, poltronas de cinema, assentos de ônibus, sinais de trânsito etc. O direito de propriedade é pouco respeitado, quer seja público, quer privado. 4) Sujeira nos lavatórios públicos. A limpeza vai melhorando à medida que nos encaminhamos para o Sul do país. A linha divisória, entre "os dois Brasís" de que falava Jacques Lambert, passa por S. Paulo. O triunfo do Sujismundo nas ruas e outras áreas coletivas corresponde, nos trópicos, à limpeza dos corpos, ao contrário do que ocorre na Europa onde o hábito do banho foi, outrora, coibido pelo puritanismo cristão. 5) A ausência comum de troco nas pequenas transações é sinal de falta de previdência ou, comumente, da presença de inflação. Ninguém pensa a longo-prazo. Raros são os previdentes e, por conseguinte, reduzida a poupança. A dificuldade no câmbio é outro indicio de economia primitiva. Nos países de moeda "séria" ou conversível, o câmbio é uma operação banal de cambista, sem qualquer intervenção burocrática. Em áreas atrasadas que só produzem latifundiários, pobres, padres, mafiosos, políticos e mães prolíficas, o câmbio de moeda é acompanhado de muito palavreado, de papelada, assinaturas, conversa fiada e cantoria. 6) A descortesia no atendimento em repartição pública, vigorante nos países sub-desenvolvidos, revela a burocracia como uma classe patrimonialista arrogante, preguiçosa e inepta que considera os cidadãos privados, contribuintes, como o proletariado a ser explorado. As filas intermináveis diante dos guichês são um indicador poderoso da existência da antiquíssima Nova Classe patrimonialista... 7) A ausência de informação pública, como por exemplo sinais de trânsito ou indicações de destinação nas avenidas e estradas, é muito característico. Quando viajamos na América do Norte e Europa ocidental, só precisamos de um simples mapa, sem nos perder ou indagar o caminho a nativos desconhecidos. Ao sul dos Alpes, dos Pirineus ou do Rio Grande do Texas, muda a situação: Você sempre corre o risco de extraviar-se. Na Ilha da Fantasia que é a capital do país e cidade de intensa imigração, só se vislumbram endereços ou indicações precárias ou herméticas sobre ruas, avenidas, bairros e logradouros públicos importantes. O fenômeno é um indício grave do pouco apreço que dedicamos à Informação e ao conhecimento em geral

A democracia liberal moderna é aquela que distribui igualmente pela população os serviços e informações que todo cidadão tem o direito de obter e o dever de respeitar. Ora, como se pode obedecer às leis e regulamentos quando eles existem aos milhares, podem “não pegar”, são confusos, contraditórios, incoerentes e deliberadamente mal redigidos para favorecer grupos corporativos interessado? Civismo de parte da cidadania e eficiência de parte do governo é o que se pede... A observação conclusiva é que, nos países do Terceiro Mundo os indivíduos podem ser muito espertos e inteligentes, a cole­tividade é invariavelmente burra. Povo pobre é povo burro, dizia o admirável aforismo de Gilberto Amado. O que distingue o Terceiro Mundo do Primeiro é que ele não passou pela Idade da Razão. Não foi influenciado por Descartes que salientava a clareza e a precisão como Métodos para Bem Conduzir o Pensamento. No Terceiro Mundo a gente não gosta de pensar. Menos ainda pensar racional e praticamente sobre a relação de causa e efeito. O conhecimento e a informação são deixados a uma pequena minoria de "intelectuais" que o monopolizam para, com isso, adquirir poder e prestígio.

( José Osvaldo Meira Penna)

www.meirapenna.com.br

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